segunda-feira, 10 de agosto de 2009

E foi assim há 214 anos......


Já contava as semanas, os dias, as horas para o chegar deste dia. Cheguei a sonhar com o momento. A ansiedade, o nervosismo, a antecipação, tomavam conta de mim. Não era caso para menos, pois ia satisfazer um sonho de há muito. Beber um madeira do Séc. 18.
Ainda mesmo antes do evento, para mim solene, de beber um vinho histórico, pesquisei o que se passou pelo ano de 1795, o ano em que nasceu este vinho, um Real Vinícola da Madeira Terrantez 1795.
Em Portugal era D. João VI, O Clemente, que como regente, em virtude da doença de Sua Alteza Real D. Maria I, governava Portugal. Na Europa fervilhavam as revoluções, e em França, morria Luís XVII, filho de Maria Antonieta, com apenas 10 anos. Em breve iniciaria-se a era Napoleão Bonaparte. Enfim, foi há 214 que nasceu este vinho.
Estava chegado o dia. Cada um dos presentes, todos amigos, tinha a missão de trazer algo especial, que pudesse acompanhar o actor principal da noite, também ele trazido por um dos presentes. Uma noite inesquecível....





Começávamos, ainda com luz solar, com o Champagne da praxe. O eleito foi um Billecart Salmon Blanc de Blancs 1998. Que bela maneira de começar. O vinho nem parece já ter 11 anos. Jovem, muito jovem, ainda muito primário e explosivo na boca. É bom que se farta, mas precisa de tempo para ganhar muito mais.
Sem mais demoras, e já com o primeiro prato às mãos, veio um duelo, às cegas. Leoville las Cases 92 vs Chateau Montelena Cabernet Sauvignon 92. Apontámos quase todos, no caso do Leoville, para anos 80. O vinho estava algo evoluído, mas mostrava uma fineza, uma precisão invejável. Já o Montelena, menos evoluído na cor, mostrava-se um vinho quente, algo bruto, mas ainda assim, equilibrado, vivo e com enorme potencial. Gostei mais do Leoville, pelo momento perfeito em que se encontra para ser bebido, no entanto o Montelena, pareceu-me que terá um futuro mais brilhante.



Chegava um Foie Gras, e com ele o primeiro fortificado da noite. Uma entrada triunfal do grande Noval 1880. Impressionante a jovialidade, o sabor, o final quase eterno num vinho fino, delicado, mas cheio de nervo e profundidade. Foi simplesmente mágico beber este vinho.



Após algum tempo de conversa e deleite pelo vinho anterior, chegava a altura dos brancos. A ideia era começar com um Champagne Perrier Jouet de 64, mas este, estava completamente imbebível. Assim, partimos para os brancos secos. Às cegas, chegou o primeiro. Um Domaine Gauby Vieilles Vignes 2004. Que bela surpresa. Apostei na Borgonha. O vinho tinha um equilibrio notavel, uma mineralidade evidente e algo de etéreo, apesar de ainda estar muito jovem e fechado. Muito bom. De seguida, dois brancos de renome. Um Coche-Dury Mersault 2000 e um Roulot Mersault-Perriéres 2001. Se por um lado o Coche-Dury apresentou uma má garrafa, muito evoluída, com notas caramelizadas e uma boca chata, que evidenciava um problema, comparativamente às anteriores que provei, o Roulot, encheu-me as medidas. O vinho tem tudo: tem elegância, tem intensidade, tem mineralidade, tem precisão, tem charme, tem profundidade, tem sabor e tem nervo. Impressionante este vinho.



Três tintos se seguiam na continuação da noite. Vieram os dois primeiros, um Chateau Le Gay 88 e um Domaine Dujac Charmes Chambertin 95. O Le Gay, foi o vinho que mais conversas gerou. No primeiro impacto exclamei que se tratada de novo de um Bordéus. De repente, fecha-se em copas, e começamos a divagar a sua origem. Não me impressionou especialmente, este vinho, mercê de alguma falta de profundidade, de intensidade. O oposto do Dujac. Mais uma vez, a emoção de provar um grande vinho. Sinto alguma vaidade por ter acertado no produtor. O seu perfume é inconfundível (já tinha bebido este mesmo vinho 2 meses antes). Ligeiro volátil no nariz e uma sensação de confusão, marcam o de inicio, o aroma deste vinho. O vinho começa então a desabrochar, a tornar-se cada vez mais limpo, cada vez mais preciso, cada vez mais expressivo. Podia passar horas e horas a cheirá-lo. Elegante, profundo e sedutor. Que mais se pode querer num só vinho. Melhor que isto só mesmo......:). A terminar a série veio um Batuta 2001. Em forma, e para mim, o melhor Batuta.




Port time.....Aqui tivemos um frente a frente, em espécie de tira teimas. Já por várias ocasiões se falava neste confronto, por muitas vezes se "encostou o enólogo à parede" a fim de tirar satisfações. No mínimo foi elucidativo. Ora aqui tínhamos um Fonseca Guimaraens Vintage 76 e um Fonseca Vintage 77. O Fonseca 76 é um dos grandes portos que já tive oportunidade de beber e não consigo ficar indiferente a este vinho cada vez que o bebo. O Fonseca 77, de um ano clássico, de um ano maior, sempre foi também um vinho que adorei, sem no entanto alguma vez o ter provado junto com o seu rival de hoje. Não foram fáceis as conclusões, no entanto, para mim, acabou por, "ganhar" o 77. É quase a história da Bela e do Monstro entre um vinho delicado, fino, elegante, expressivo e profundo contra um outro possante, denso e volumoso. Duas versões distintas, de dois grandes vinhos.



Decantado há cerca de 5 horas, esperava por nós o Rei da festa. falava-se muito e de muita coisa, parecendo que ninguém se sentia com coragem para o chamar. O anfitrião deu a palavra de ordem. Um simples "vá"!!! E já se corria para escorrer o precioso liquido para os copos. Aquando da sua abertura, todos o provámos, ficando desde logo uma total ideia de que teríamos algo grande. Para mim, que estava ansioso, sem saber o que esperar, apenas almejando ter a fortuna que outros já tiveram em vinhos tão antigos, a minha primeira impressão foi de alívio. Reconhecia-lhe pedigree, mas já estava decantado há 5 horas. Teria-se desmoronado? Era a altura de ver como estava. O primeiro impacto caía que nem uma bomba. O vinho estava mais expressivo, mostrava enorme exotismo e frescura. Sem pensar levei-o à boca. Monumental. Tornou-se mais espesso, mais saboroso, mais vivo e fresco. Faltavam-me palavras e sorria de alegria, para não chorar. Um episódio que jamais esquecerei. Estava perante um vinho monumental, que nasceu há 214 anos, e que ainda por cima nasceu no meu país. Inesquecível.

Foi uma noite única, pelo alinhamento dos vinhos, uma noite de sonho, por ter tido finalmente a honra de beber alguns deles, mas sinceramente que todos estes sentimentos, todas estas emoções, tiveram um sabor muito maior, muito mais especial, por tê-los partilhado à mesa com amigos, de quem gosto muito. O vinho é mesmo isto, partilha de emoções. Novamente..... Inesquecível.

3 comentários:

Anónimo segunda-feira, agosto 17, 2009 10:29:00 da tarde  

Lindo...vieram-me as lágrimas aos olhos...de emoção e ...saudade. Belos, belos vinhos...excelente companhia. Abc, NGo

Rui segunda-feira, agosto 24, 2009 3:19:00 da tarde  

Caríssimo,
belíssimo report sobre um dia que imagino inesquecível!

Grande abraço
Chap

Susana terça-feira, agosto 25, 2009 4:03:00 da tarde  

Olá!

Quero dar os parabéns pelo blogue. É uma óptima forma de dar a conhecer o verdadeiro nectar dos deuses.

Venho por este meio fazer um convite :

De 10 a 30 de Setembro irá decorrer uma blogagem colectiva sobre vindimas e vinhos. Convido-o a participar enviando um pequeno texto (com a respectiva identificação do autor e endereço do blogue), com máximo 25 linhas e uma fotografia até dia 8 de Setembro para : aminhaldeia@sapo.pt

Para saber mais, sobre o funcionamento da mesma, queira por favor fazer uma visita ao blogue da Aldeia da minha vida.

Ficarei a aguardar por si para uma boa lição de vinhos...para quem nada percebe do assunto...como eu.

Abraço
Susana Falhas

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