Velhos são os trapos
Se há preconceito que mais me dói, é esse mesmo. Para o português em geral, apenas o Vinho do Porto, graças ao ditado, quanto mais velho melhor, é reconhecido como o único vinho capaz de ser bebido em velho. Nem mesmo o eterno Vinho da Madeira, é reconhecido com essa capacidade e não poucas vezes as pessoas se intrigam como é possível já ter bebido um vinho do Séc. XIX ou mesmo XVIII, ficam atónitas, desconfiando sempre do que lhes digo. Se por um lado nos fortificados ainda ficam desconfiadas, nos vinhos de mesa, com especial relevo nos Vinhos Brancos, a possibilidade de um vinho, digamos que com 10 anos, estar bom é algo que nem sequer colocam em questão. Está vinagre e pronto!!!!!
Pois eu, adoro vinhos velhos. Adoro a complexidade e a plenitude de um vinho que esperou dezenas de anos dentro de uma garrafa, à espera daquela pessoa a quem estava destinado. E quando essa pessoa gosta de vinhos velhos, parece uma electrizante mística que envolve este dueto Vinho/Bebedor.
Há umas semanas agendei com amigos, bons amigos, que gostam tanto de vinhos velhos como eu, uma "limpeza de garrafeira" (não é bem limpeza de garrafeira, mas sim uma desculpa para estar com os amigos e abrir vinhos que sei que irei gostar, aliás, que iremos gostar) dos vinhos velhos que andam cá por casa. A ideia foi de pegar em vinhos de várias décadas, começando pela década de 50 e chegar aos anos 90.
A prova foi emocionante, muito graças aos vinhos que estavam em fantásticas condições, muitos deles em patamares de excelência, estando apenas um prejudicado pela presença de TCA. As vezes pergunto-me se não poderia ter um rasgo de ganância e beber uma destas garrafas sozinho. Poder, podia, mas não era a mesma coisa. Estas tardes assim passadas, aprendendo, dissertando, e sobretudo bebendo belos vinhos velhos, tem muito mais interesse, se for num ambiente de partilha e de amizade.
Como já disse, os vinhos, eram 21, estavam em magníficas condições, na sua maioria e souberam deixar uma grande certeza; Há belíssimos vinhos velhos Portugueses, ou se quiserem, existem garrafas magníficas de vinhos velhos Portugueses.

Pommery Millesime 1955
Evoluído, com notas de caramelo. Excelente acidez e percepção ténue do gás. Muito bom
Pommery Millesime 1962
Muito menos evoluído, com notas resinosas. Complexo. Excelente frescura e soberba acidez. Fantástico.
Caves são João 1967
Uma garrafa de antologia. Simplesmente perfeito, equilibrado e no auge máximo.
Tinto velho Cartaxo 1966
José Rosado Fernandes Tinto velho 1975
Muito bem, no estilo Rosado Fernandes, apesar da volátil alta. Grande concentração e pujança.
Centro de Estudos de Nelas Dão 1975
José Rosado Fernandes Tinto velho 1980
Pareceu-me com menos volátil que o 75 mas também com menos concentração. Num estilo mais fino, numa prova onde mostrou-se estar no limite.
Cooperativa do Vilarinho do Bairro Garrafeira Bairrada 1980
Herdade do Mouchão 1985
Quinta do Carmo Garrafeira 1987
Valdarcos 1985
Pena que o TCA estivesse a esconder o grande vinho que estava por baixo.
Gonçalves Faria Tonel Especial 5 Garrafeira 1990
Como sempre, magistral, delicioso, potente mas elegante, austero mas redondo.
Quinta da Dôna 1991
Romeira Garrafeira 1976 (Magnum)
Muito bem no aroma mas algo metálico na boca.
Borgogno Barolo 1993
Ligeiramente turvo, floral, fruto Silvestre. Alguma evolução. Taninos empertigados. Muito bom.
Quinta do Todão Vinho Velho
A.J da Silva 1880 (Quinta do Noval)
Boca com enorme frescura, acidez magistral a pedir copo atrás de copo. Longo, longo, longo. Ligeiro desvio alcoólico. Quase perfeito.
Laurent Perrier Grand Siécle
1º Prémio da Confraria dos Enófilos Alentejo Branco 1991














