quinta-feira, 12 de junho de 2008

Dia de Portugal (As minhas impressões)

A medida que se desenrolava a prova, ia eu, e todos os outros,tirando notas dos vinhos que passavam à nossa frente. São meras impressões e como tal muito resumidas. Nem todos os vinhos enunciados vão estar descritos, uma vez que optei por colocar apenas os que mais gostei ou que possam ter alguma particularidade interessante.


Os Brancos


Grandjó 1925
Um dos vinhos que colocou todos os presentes "em sentido". Era altura de poucas palavras mas de muita contemplação por um vinho raro e lendário. O vinho em si não defraudou as expectativas até porque estaríamos perante um dos poucos exemplares que estaria em perfeitas condições. Na cor ondulava um amarelo bem torrado com reflexos esverdeados. Aroma com sugestões especiadas, nomeadamente de açafrão e sugestões de algo medicinal. Boca um tanto delgada mas rica pela perfeita sincronização entre a já pouca doçura e a não menos desvanecida acidez. O que é certo é que um vinho com esta idade e ainda estar vivo, é um perfeito milagre.

Marquis de Soveral 1958
Começou algo estranho. Inicialmente afastei-me um pouco dele mas à medida que arejava, tornou-se num vinho sério e com uma frescura reconfortante e uma vivacidade invejável.

Marquis de Soveral 1967
Muito aromático e intenso, este vinho mostrou notas resinosas interessantíssimas.
Muito vivo na boca, com boa acidez e frescura.

Real Vinícola Dão 1980
Uma bela surpresa para um vinho que ainda tem muito para dar. Nariz rico com sugestões petroladas, vegetais e resinosas.
Boca de enorme frescura, acidez penetrante e final longo. Fantástico

Centro de Estudos de Nelas 1994
Aroma muito interessante. Muito aromático, com notas de resinas, ervas aromáticas, alguma fruta e muita mineralidade.
Boca intensa e de uma acidez fantástica. Belíssimo vinho

Resumindo, apesar de não estarem aqui todos os brancos provados, foi uma prova que me surpreendeu muito, pela vivacidade de quase todos os vinhos. Ainda há quem diga que os nossos brancos não sabem envelhecer. Esta prova mostrou de certa forma, o contrário.


Os Tintos

Luís Pato 1985
Aroma muito interessante de notas de caramelo, de madeira velha e de alguma erva doce.
Vinho com boa estrutura e com taninos ainda suficientes para não nos esquecermos deles.

Sidónio Sousa Caves Valdarcos 1985
Por esta não esperava. Um vinho concentrado, cheio de fruta, com notas de verniz e notas tostadas.
Boca ainda com juventude a mostra taninos vigorosos e cheios de pujança. Impressionante este vinho que não parece estar sequer no seu melhor.

Grupo dos 8 Bairrada 1988
Aroma muito intendo e especiado. Mostrou ligeira oxidação no aroma. Muito saboroso e com final algo taninoso e seco.

Buçaco Reserva 1983
Aroma muito delicado e intenso. Boca muito sensual e saborosa. Uma surpresa

Mouchão 1962
Há bem pouco tinha provado a colheita de 63, que me tinha deixado completamente embeiçado. Este Mouchão estará, no meu entender, alguns furos abaixo do seu sucessor mas ainda assim é um vinho cheio de vida e que nos dá um prazer enorme a ser bebido.

Mouchão 1970
São porventura aqueles vinhos dos quais não esperamos grande coisa, que quando nos surpreendem, nos deixam em completa êxtase. Este Mouchão é um desses vinhos. Impressiona logo pela cor concentrada que sugere um vinho muito mais recente.
Nariz muito concentrado, pleno de aromas frutados, de aromas especiados.
Na boca é tão saboroso, com uma frescura incessante e final longo e de enorme categoria. Um hino ao grande vinhos portugueses.

Colares Visconde de Salreu 1967
Aroma intenso a torrefacção, café, madeira velha e chá preto.
Boca com muita acidez e vivacidade.

Viuva José Gomes da Silva Reserva Velho 1965
Aroma de boa intensidade com notas de erva doce, muita madeira velha e algumas sugestões mentoladas.
Boca redonde a com alguma acidez.

Grantom Garrafeira 1958
Muito fresco e aromático.
Boca repleta de vivacidade e com tanino ainda presente

Ferreirinha Reserva Especial 1974
A segunda colheita da magistral carreira dos Reserva Especial. Se tivesse que identificar este vinho com apenas uma palavra, essa seria sem margem para dúvida a Elegância. Este vinho é elegante, delicado e com uma frescura impar.
Na boca novamente elegância, intensidade e frescura. Fantástico

Quinta do Côtto Bastardo 1973
Apresentava uma belissima cor. Muito bem no aroma com sugestões de caruma, café, alguma ameixa e alguns fumados.
Boca equilibrada e de boa frescura. Redondo e saboroso. Belo vinho

Quinta do Carmo Garrafeira 1986
Muito bem no aroma. Não parece ter perdido muita da sua intensidade apesar dos anos que passaram. Mostra um aroma profundo e imaculado.
Muito saboroso na boca. É equilibrado e com robustez fantástica. Final longo. Grande vinho.

Quinta do Carmo Garrafeira 1987
A mim pareceu-me perder alguns pontos para o 86. Mantém o perfil dos Quinta do Carmo mas desta feita já mostra algumas notas de oxidação e poderei até considerar um vinho menos rico e interessante que o seu antecessor. Ainda assim considero-o um belo vinho.
Ressalvo que esta garrafa terá sido algo maltratada durante a sua guarda. Por isso dou-lhe o beneficio da duvida.

Valle Pradinhos 1986
Foi provado às cegas com os dois Garrafeiras da Quinta do Carmo e pareceu-me ser o que estaria em menores condições. No nariz facilmente se identificava a casta Cabernet Sauvignon mas pareceu-me já algo cansado.



Fortificados

Delaforce Corte Vintage 1997
Cor sem evolução significativa. Aroma concentrado com notas de fruto maduro e preto, Sugestões de baunilha e notas florais.
Muito bem na boca onde mostra bom equilíbrio entre a doçura e a acidez. Taninos sedosos que permitem dar grande prova desde já. Belo vintage

Smith Woodhouse Vintage 1980
Muito bem na cor, as cegas como foi provado, levava-me para anos da década de 90. Aroma de ameixas, uva passa e cerejas que se associam a notas de tabaco.
Não sendo um colosso de estrutura, na boca, mantém uma certa untuosidade. Pareceu-me algo quente no final. Precisava de mais tempo de decantação para se encaixar. Gostei deste vintage

Niepoort Tawny 1927
Este vinho é pertença de Rolf Niepoort, que o recebeu como homenagem de seu pai, quando nasceu. Nunca foi comercializado e apenas foram engarrafadas 350 garrafas.
Nem sei por onde começar. Fantástica cor para um vinho deste ano. Não é âmbar devido as nuances avermelhadas que apresenta.
No nariz é a complexidade que comanda. Rico e intenso apresenta muitasa notas de torrefacção, caramelo, cerejas e ainda algumas especiarias e bolo inglês.
Boca acetinada, riquissima, profunda e intensa que com um final apoteótico. Nunca bebi nada assim e não tenho duvidas em colocar no cimo das minhas preferências. Foi uma honra para mim ter bebido deste grande homenagem.


Estrangeiros

Vega Sicilia Único 1986
Os anos não parecem passar por este vinho. Cor muito carregada ainda.
Após a decantação, ao escorrer para o copo soltava de imediato notas de azeitonas pretas. Entretanto iniciavam-se as notas de tabaco, de fruto maduro, especiarias e um certo couro.
Muito encorpado este vinho quase que explodia na boca com sensações de fruto maduro. Terminava perfeito e longo. Ainda com muita vida pela sua frente este é realmente um dos grandes do Mundo.

Weingut Keller Westhofener Kirschspiel Riesling 2004
Aroma muito intenso com muitas notas minerais, fruto tropical, Pêssego e flores.
Boca cremosa com excelente acidez. É difícil parar de beber este Riesling. Absolutamente viciante.

Donnhoff Niederhauser Hermannshohle Riesling Auslese 2001
Cor amarela. Aroma de fruta confitada, sensação de botritys e muita mas muita mineralidade.
Boca cheia e vigorosa mas ao mesmo tempo delicada que se redobra em notas tão saborosas. Final longuíssimo e cheio de prazer. Um grande mas grande vinho

Champagne R&L Legras Cuvée St Vincent Blanc de Blancs 1996
Aqui vai o prémio para o mais fantástico nariz. No ataque um fabuloso aroma de massa folhada a sair do forno que se associa a maças e baunilha. Tudo isto em uma intensidade fenomenal.
Bolha fina e mousse delicada trazem-nos para bem perto da perfeição. Que belo champagne.

Coche-Dury Mersault 1999
Bonita e brilhante cor amarelada. Aroma muito complexo com notas minerais de citrinos. No nariz a elegância é a nota predominante onde o perfeito equilíbrio entre o vinho e a madeira é elevado ao extremo.
Boca cremosa, explosiva, intensa e profunda. Termina longo e com classe. Soberbo.

Domaine Rousseau Gevrey-Chambertin 2004
Muito delicado no aroma, misterioso. Notas de fruto silvestre, especiarias e algum vegetal.
Boca sedosa e elegante que termina com perfeito equilíbrio.

Domaine Rousseau Gevrey-Chambertin 2005
Mais concentrado que o anterior, mesmo até na cor, é um vinho cujos aromas são bem mais fáceis de gostar. As notas de morangos e especiarias dão intensidade no aroma.
Boca mais facil e provavelmente mais saborosa que o seu antecessor. Gostei mais do 2004

Domaine de la Romanée-Conti La Tâche 2002
Foi provado às cegas depois dos Rousseau e de imediato senti mais intensidade e mais complexidade. Aroma fino e delicado com notas de fruto silvestre, especiaria, algum vegetal. Muito complexo pois tive a contemplar este vinho por mais de uma hora e tudo se mostrava cada vez melhor e sempre tendendo para uma maior elegância.
Boca em tudo harmoniosa e equilibrada. Mais elegância, agora na prova de boca. Soberbo

Giacomo Conterno Barolo Riserva 1995
Cor de grande concentração. Aromas de fruto maduro, notas licoradas e de tosta.
Boca de grande potência e estrutura. Um vinho para muitos anos. Um grndioso vinho.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

O meu dia de Portugal

A convite do produtor de vinhos Dirk Niepoort, o dia 10 de Junho, dia de Portugal e das Comunidades, foi passado quase em exclusivo em torno dos nossos vinhos.
Nesta prova/evento, estava presente o critico de vinhos Norueguês, Tom Marthinsen, que se encontra em Portugal para escrever um livro sobre o nosso vinho.
A prova consistia em provar vinhos velhos, ou seja vinhos com pelo menos 14 anos. Nesta prova entravam vinhos desde 1925 a 1994, todos vinhos tranquilos brancos e tintos. na maioria quase todos os presentes foram contribuindo com preciosidades e raridades que se encontravam nas suas garrafeiras. O evento iniciou-se pelas 11 da manhã, para só terminar já noite dentro.

Os convivas:

Dirk Niepoort
Tom Marthisen
Helge Hansen (fotografo que acompanha Tom)
Luís Seabra
Nick Delaforce
Rita Ferreira
Vítor Claro
Luís Ferreira
Paulo Silva (Blog Vinho da Casa)
Nuno Gonçalves
Nina
Joana


Os Vinhos:


Brancos

Douro
Grandjó 1925
Marquis de Soveral 1967
Marquis de Soveral 1964
Ermida 1965
Marquis de Soveral 1958
Pérola Garrafeira 1980
Lamego 1963
Lamego 1964

Dão
Real Vinícola 1980
Centro de Estudos de Nelas 1994

Colares
Colares Chitas 1974


Tintos

Bairrada
Luís Pato 1980
Luís Pato 1985
Luís Pato 1988
Luís Pato Vinhas Velhas 1990
Luís Pato Vinhas Velhas 1992
Luís Pato Vinhas Velhas 1995
Sidónio Sousa Caves Valdarcos 185
Valdarcos Garrafeira 1985
Grupo dos 8 1988
Caves Montanha 1967
Adega Cooperativa de Souselas 1965

Bairrada/Dão
Buçaco Reserva 1983
Buçaco Reserva 1970
Buçaco Reserva 1962
Buçaco Reserva 1959

Palmela
Periquita 1970

Colares
Colares Visconde de Salreu 1933
Visconde de Salreu Garrafeira Particular 1968
Viúva José Gomes da Silva Reserva Velho 1965
Chitas 1968
Visconde de Salreu Garrafeira Particular 1967

Dão
Dão Pipas (63 ou 67, era assim o rotulo)
Dão Cabido 1970
Dão Cabido 1967

Alentejo
Mouchão 1962
Mouchão 1970
Quinta do Carmo Garrafeira 1986
Quinta do Carmo Garrafeira 1987

Douro e Trás os Montes
Evel Garrafeira 1964
Real Vinicola Granleve 1965
Vinha Grande 1962
Montaria 1966 (este vinho é da Taylor's)
Gramtom Garrafeira 1958
Marquis de Soveral Garrafeira 1958
Ferreirinha Reserva Especial 1974
Quinta do Côtto Bastardo 1973
Quinta do Côtto Bastardo 1974
Valle Pradinhos 1986



Ainda que fora do âmbito da prova, foram provados alguns vinhos estrangeiros e portugueses que iam sendo provados ao longo do dia e ao jantar, depois da prova principal:

Portugueses


Branco dos Cozinheiros 2004
Luis Pato Vinha Formal 2006
Luis Pato Vinha Formal 2007

Casa Agrícola Horácio Simões Moscatel Roxo Excellent
Delaforce Corte 1997 Vintage
Smith Woodhouse 1980 Vintage
Niepoort (Vinho de Família) 1927



Estrangeiros
Weingut St. Johannishof Erderner Pralat Riesling Auslese 1979
Egly-Ouriet Blanc de Noir Grand Cru
Giacomo Conterno Monfortino Barolo Riserva 1995
Domaine de la Romanée-Conti La Tâche 2002
Armand Rousseau Gevrey-Chambertin 2004
Armand Rousseau Gevrey-Chambertin 2005
Chateau Grand-Puy-Ducasse 1966
Coche-Dury Mersault 1999
Duplessis Chablis Les Clos 2000
R&L Legras Cuvée St Vincent 1996
Keller Westhofen Kirchspiel Trocken 2004
Macforbes Riesling RS9 2006
Donnhoff Niederhauser Hermannshohle Riesling Auslese 2001
Vega Sicilia Unico 1986


Foram estes os vinhos que acabaram por fazer parte do meu dia de Portugal, um dia que nunca esquecerei. Foi para mim fantástico quer pelo convívio, pela futebolada e pelos grandes e raros vinhos com que fomos presenteados. Existem nesta lista vinhos sublimes que me tocaram profundamente.

Algumas imagens:


Um alinhamento de sonho......


Alguns dos vinhos em prova


O autor deste blog


No comments!!!!


Os nossos brancos do antigamente


Classe mundial!!!!


Absolutamente divinal.....


Fantástico este Barolo. Full Power!!!

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Dia 2 (18 de Maio) - Parte 3 de 3

Após a visita memorável à Casa de Santar dirigimo-nos para um dos mais badalados, pelo menos ultimamente, produtores do Dão. A Quinta das Marias
Numa Região onde praticamente todos os que produzem vinho são Portugueses com ligação à região ou que tenham investido nela e no vinho, existe um produtor Suíço que tem tido uma intensa e interessante aventura.
Peter Eckert é um apaixonado pelo vinho e pela sua Quinta. Contou-nos que teve várias hipóteses de comprar uma quinta em vários locais mas diz que a Quinta das Marias foi amor à primeira vista. É realmente um homem apaixonado em tudo o que faz, mas quando começa a falar de vinho e especialmente das experiências que vai fazendo na adega, então aí o brilho em seus olhos mostra o interior do seu coração.
Ora bem, depois de uma visita curta pela adega, até porque não é muito grande, e de nos mostrar as suas ultimas inovações e experiências, entramos então na provas de vinhos:


Brancos

Quinta das Marias Encruzado 2007
Aroma de intenso vegetal, com notas de de hortelã. Muito equilibrado e com excelente acidez, denota muita frescura.

Quinta das Marias Encruzado "Barricas" 2007
Mantém o perfil aromático do "sem barricas". Denota um vinho muito jovem que ainda não acalmou toda esta vertente vegetal. Boca de bom volume mas muito fresca e equilibrada. Denota um belo trabalho com a madeira. Um belo vinho

Rosés

Quinta das Marias Rosé 2007
Aromático, com notas de morango e alguma sugestão de rebuçado. Boca de frescura e boa acidez.


Tintos

Quinta das Marias Garrafeira 2005
Curiosamente não tinha a mesma intensidade que constatei da ultima vez, achei-o ainda fechado, até mesmo sisudo, mas isso terá eventualmente a ver com o facto de o vinho ter sido aberto no momento. Boca cheia e de potência. Termina longo

Quinta das Marias Alfrocheiro 2006
Muito interessante o perfil deste vinho. Não fosse a certeza de ser um Alfrocheiro, apostava na casta Pinot Noir. Muito delicado e elegante no aroma. Boca equilibrada e elegante. Uma surpresa.

Quinta das Marias Cuvée TT 2006
Aroma muito interessante e boa intensidade. Fruto maduro e especiarias. Boca de boa estrutura e intensidade.

Quinta das Marias Touriga Nacional 2006
Este era o vinho que ansiosamente esperava por provar, face ao sucesso do seu antecessor. Muito menos exuberante é a constatação a que cheguei de imediato. Mas e a qualidade? Bom, penso que ainda que eventualmente estará uns furinhos abaixo do 2005 mas não deixando de ser um belo vinho. 2006 continua a ser um ano, com derrotismo por parte dos nossos produtores, um ano difícil e isso pode ser a principal razão na pequena diferença entre as duas colheitas. Neste momento temos um aroma de fruto maduro, um aroma mais sóbrio mas que continua evidencias as notas florais. A estrutura e potência do vinho mantém-se.



Em jeito de resumo, continuo a achar que este produtor sabe muito bem o que está a fazer e mesmo o que quer no futuro. A curiosidade é o facto dos seus brancos de 2007 serem completamente diferentes dos anteriores, aliás completamente diferentes não, o Encruzado mostra é uma das suas outras facetas, a vegetal. Em breve estes brancos estarão muito melhores. A surpresa é um Alfrocheiro com invocações da casta Pinot Noir. No mínimo interessante.
Parece-me que este produtor consegue manter uma qualidade invejável mesmo em anos mais difíceis, o que é de louvar. Espero ainda que mantenha esta alma experimentalista e apaixonada pois é desse espírito que resultam os vinhos que tem feito.

Após a prova, fomos brindados com um fantástico jantar, na companhia de Peter e de sua adorável Esposa. Neste jantar pude verificar a cumplicidade dos vinhos da Quinta das Marias com a comida. O "Barricas", para as entradas de presunto e de queijo da serra, e o Garrafeira, para o cabrito, encaixaram na perfeição.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Dia 2 (18 de Maio) - Parte 2 de 3

A vila de Santar era o nosso próximo destino, e a Casa de Santar, o produtor que estaria no centro das nossas atenções. Esta era uma visita que antecipava há muito, pela sua história vínica, que me foi de certo modo apresentada num copo onde já estava vertido um Santar 1965, aquando das provas temáticas do Encontro com Vinhos e Sabores, do ano passado.
Apesar de toda a expectativa, não estava perto de imaginar o que nas próximas horas iria passar diante dos meus olhos. E não me estou apenas a referir a vinhos.
Chegados ao local fomos recebidos pela equipa da Casa de Santar/Dão Sul, o Engº Carlos Lucas e o Sr Engº Pedro Vasconcellos e Souza (enólogo da Casa de Santar). Ao entramos não consigo esquecer o que disse o Engº Carlos Lucas. A Casa de Santar é o único Chateau Português. Estava dado o mote para uma visita fantástica.

As imagens do Chateau Casa de Santar:


O Brasão da Casa de Santar



Um mini Museu dos Coches e do Traje, pertencente à família



Uma cozinha que tem uma fonte sobre a qual se diz que quem beber daquela fonte, em um ano estará casado(a). Um fogão secular, que ainda funciona e no qual foram cozinhadas as iguarias que tivemos para almoço.





A lindíssima capela da família, os jardins da Casa de Santar e a história vínica de Santar.

Após este pequeno passeio fomos recebidos dentro de casa pela Dona Maria Teresa Lancastre de Melo, 3ª Condessa de Santar. Entrámos a seu convite na sua magnifica casa. Não tirei fotografias do interior da casa, como é óbvio, pois nem sequer me atreveria a tal. É difícil explicar por palavras o que ia sentindo ao passar por tantos e tantos pormenores da nossa grandiosa historia. Uma casa lindíssima.
Mas se por um lado a Casa de Santar por si só já era para mim algo fascinante, foi na Condessa de Santar que vi um ser humano como poucos tenho visto em toda a minha vida. No meio de um palácio sóbrio e histórico, tudo ganhava vida com a sua contagiante simpatia, com a sua desconcertante alegria e sentido de humor. Mostrou-nos todos, ou quase todos, os cantos da casa, alertando-nos sempre para as histórias que cada parede, cada inscrição ou cada passagem secreta continham. Foram 30 minutos em que sorvi cada pedaço de informação.

Bom, mas o trabalho eram os vinhos pelo que após a visita, estávamos então prontos a provar os vinhos da Casa de Santar e restantes quintas da Dão Sul.


Brancos

Casa de Santar 2007
Muito aromático, excelente acidez e frescura.

Quinta de Cabriz Encruzado 2006
Um Encruzado com aromas anisados, fruta tropical, mineralidade e frescura. Boca com excelente acidez.

Quinta de Cabriz Encruzado 2007
Pareceu-me na altura ainda algo fechado. Muito mineral, e com uma acidez enervante. Face ao seu preço normal, é um achado.

Casa de Santar Reserva 2007
Aromas de fruto branca, baunilha e algum vegetal. Boca assertiva de boa estrutura e acidez.

Condessa de Santar 2006
Muito elegante no aroma. Intenso, com notas de citrinos, sugestões anisadas e também vegetais. Boca também elegante, requintada e em perfeita harmonia. Adorei este vinho. Faz-me esperar pelo 2007

Paço dos Cunhas de Santar Vinha do Contador 2006
Aroma ainda algo marcado pela madeira onde estagiou. Ainda que não prejudique demasiado, parece pedir tempo. Boca cheia e glicerinada.

Quinta do Encontro Encontro 1 2006 (Bairrada)
Feito de Bical e Arinto. Apresenta alguns aromas de oxidação habituais neste tipo de vinhos. Muitas notas de barrica presentes no aroma mas curiosamente não tornam o vinho pesado. Boca cheia e intensa. Outro que gostei, bastante mas o preço....


Tintos

Casa de Santar 2005
Aroma de frutado e de boa intensidade. Boca redonda com taninos macios

Quinta de Cabriz Touriga Nacional 2004
Aroma intenso com sugestões florais incessantes que se unem a notas de fruto maduro e algumas especiarias. Boca ainda com jovialidade nos taninos. Boa acidez e persistência final.

Quinta de Cabriz Pedro & Inês 2003
Fantástico no aroma. Notas especiadas, de chocolate e tostadas. Boca com elegãncia mas com taninos e acidez ainda jovens. Belo vinho

Quinta de Cabriz Four C (CCCC) 2003
As notas de barrica ainda estão bem presentes, com notas de caramelo, de chocolate de leite. O fruto parece estar ainda algo escondido. Tudo ainda por se criar neste vinho. Muito jovem na boca e com um potencial enorme.

Paço dos Cunhas de Santar Vinha do Contador 2004
Intenso mas ao mesmo tempo um vinho sóbrio. Notas de barrica e de fruto bem integradas. Boca fantástica com harmonia e potência. Belo vinho

Pião 2003
Mistura das castas Nebbiolo de Piedmonte e Touriga Nacional do Dão. Muita intensidade no aroma e na boca. Melhora muito mas muito com o arejamento. Belo vinho

Dourat 2003
Mistura de uvas Garnatxa Roja vindas de Priorato e Touriga Nacional do Douro.
Aroma muito intenso com invocação obvia aos vinhos do Rhône. Bom volume de boca e final intenso. Senti ligeira oxidação nestre vinho.

Quinta das Tecedeiras Reserva 2005 (Douro)
Aroma complexo e muito rico. Muito jovem na boca mas muito equilibrado também. Promete

Quinta do Encontro Encontro 1 2003 (Bairrada)
Muita intensidade no aroma. Chocolate, floral, fruto maduro, torrefacção e alguma sugestão animal. Boca com notas de couro, com enorme robustez e final intenso.

Quinta do Encontro Grande Encontro 2005 (Bairrada)
Algo fechado no aroma. Boca macia e redonda mas mostrando taninos nobres. Boa acidez e estrutura.

Herdade Monte da Cal Vinha do Saturno 2004 (Alentejo)
Muitíssimo intenso no nariz. Aromas de fruto decadente aliam-se a notas de barrica muito bem integradas. Boca de boa estrutura e com excelente sabor. Saboroso este belo vinho


Centro de Estudos de Nelas Touriga Nacional 1963
Bem, nem sei o que escrever, uma vez que também fiquei sem palavras. Uma surpresa, que sei que foi dificil de conseguir, mas um vinho enorme. Não tem explicação o facto de um vinho com 45 anos de vida estar ainda tão fresco, frutado, com uma boca incrivel e cheia de sabor. Um vinhão absolutamente fenomenal

Centro de Estudos de Nelas 1987
Outro fantástico vinho. Muito fresco. Aromas confitados, mentolados e balsâmicos. Boca serena mas mais uma vez com uma frescura de fazer inveja a muitos jovens vinhos.

Santar 1955
Apesar do seu aroma algo Tawny, mostrou um vinho que ainda assim conseguia melhorar e mostrar que manem atributos ao fim dos seus 53 anos de vida. Antologia.

Quinta das Tecedeiras Vintage 2004
Aroma de muita densidade e extracção a fazer-me lembrar o perfil Vesúvio. Notas de uva passa, ameixas, laranjas, baunilha e floral. Boca com elegância a denotar um vintage com margem de progressão mas que dá desde já excelente prova.



Após uma prova deste calibre pegamos em alguns destes vinhos e fomos para um almoço a convite da Sra Condessa. Um almoço todo ele dedicado à gastronomia local mas que nos soube tão bem e tão reparador. Escusado será de dizer que os vinhos que levamos foram os mais antigos e ainda alguns actuais. pareceu-me terem todos melhorado com a decantação e o arejamento no copo.
Uma refeição abrilhantada com uns talheres com uns meros 200 anos de idade e com uns pratos com uma história deliciosa.
Enfim, o mundo do vinho também tem destas coisas. Uma visita magnifica que não mais esquecerei. O meu profundo agradecimento aos que nos receberam, com especial relevo para uma fantástica Senhora. Bem hajam


Quanto aos vinhos, apenas posso dizer que fiquei com uma ideia diferente dos vinhos de Santar e da Dão Sul. A gama de vinhos pretende alcançar o maior numero de pessoas que bebem vinho e está bem estruturada. Existem, vinhos fantásticos e que me impressionaram bastante. Muito trabalho para fazer estes vinhos, mas penso que se podem orgulhar deles.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Dia 2 (18 de Maio) - Parte 1 de 3

Ainda no dia 17, quando saimos da Bairrada, dirigimo-nos para o a zona mais central do Dão que correspondeu sem duvida a Nelas.
De manhã bem cedo e com um frio e chuva nada bem vindos, tomámos direcção para os vinhos Falorca ( Sociedade Agrícola Vale das Escadinhas).
Eis o que nos foi apresentado:

Tintos

Falorca 2006
Um vinho bem simples e saboroso. Cumpre a sua missão de agradar sem pedir muito. Face ao preço, poderia ser boa opção para um vinho diário.

TNAC 2005
Um varietal de Touriga Nacional. Fruto maduro e notas florais marcam compasso no aroma. Na boca um vinho jovem e ainda algo aguerrido nos taninos. Interessante

Falorca Reserva 2003
Aroma de muito fruto, especiaria e notas tostadas. Muito bem na boca, onde mostrou elegância e bela estrutura. Muito bom vinho

Falorca Garrafeira 2003
Intenso e aromático. Notas de fruto maduro, especiarias e sugestões. Excelente na boca, onde mostra uma elegância e finura fantástica. Excelente

Falorca Garrafeira 2004
Muito parecido com o seu antecessor, a nível aromático. Boca muito jovem e aguerrida por enquanto, mas pareceu-me mostrar talvez mais intensidade e frescura que o 2003. Teremos de esperar por este.

Falorca Reserva 2001
Aroma de boa intensidade. Notas de fruto confitado, fruto silvestre e sugestões herbáceas. Boca com boa dose de frescura e elegância.





Começámos muito bem as visitas no Dão, com um produtor que se tem revelado muito eficaz nos vinhos que faz. É com uma gama muito equilibrada que se apresenta, sendo que me obrigo a uma palavra especial dirigida a um dos belos Garrafeiras do Dão. Os Falorca Garrafeira parecem aliar a elegância e a robustez, que são denominadores comuns neste tipo de vinhos.






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