sábado, 14 de abril de 2012

Entre os Grandes, emergiu um dos nossos

Provavelmente já se aperceberam que apesar de gostar bastante dos nossos vinhos, que em vários casos ombreiam com o que de melhor se faz além fronteiras, tenho uma predilecção também por vinhos que não são feitos em Portugal. Um das minhas regiões de eleição é a Borgonha, que me fascina pela sua complexidade, que me fascina sobretudo pelo estilo de vinhos.
Na verdade tenho sido abençoado com a possibilidade rara de poder beber alguns dos grandes vinhos desta região, aliás, para ser sincero tenho sido sobejamente afortunado por beber os grandes vinhos de várias regiões, alguns dos quais suspeito que nunca repetirei a façanha.

Há umas semanas tive novamente o prazer de deambular durante uma semana pela Borgonha, onde tive a honra de ser convidado para jantar, por uma família de amigos, que sempre tão bem me recebem em sua casa. A condição é apenas uma! Beber vinhos da Borgonha. Já estão provavelmente a ver a minha cara de sacrifício. Este ano preparei uma surpresa, e acabei por trazer um vinho Português, que acabou por ser o vinho que mais suscitou o espanto dos presentes, onde se incluíam os anfitriões, um produtor de Chassagne-Montrachet, o Jean Marc Pillot e Directores da Maison Delas, no Rhône.

Este vinho que levei, era um Vinho da Madeira, um Boal, 18?? (presumidamente 1895), da Companhia Vinícola da Madeira. Pois entre alguns titãs da borgonha, o nosso Madeira acabou por ser o vinho que maior distinção teve, ao ser considerado pelos presentes como o grande vinho. Enche-me o peito de orgulho quando isto acontece com um vinho que é nosso, e deixa-me um calor especial, por ser um Vinho da Madeira. Em vinhos fortificados, podemos gritar bem alto. Somos os melhores do Mundo.




Os vinhos:


Domaine Ramonet Chassagne-Montrachet 1er Cru Morgeot 2009
Apesar do ano não ser de grande frescura e acidez, este Ramonet mostrou-se de enorme mineralidade e frescura. Na boca muito fino, mas incisivo. Pureza e elegância. Adorei

Domaine Coche-Dury Meursault 2004
Sempre que me coloco em frente dos vinhos deste produtor, fico sempre sem palavras. Coche-Dury é muito especial, encerra em si um estilo muito próprio, inimitável. Seja em que ano for, quente ou fresco, os seus vinhos mostram enorme rigor na frescura, na acidez abundante. Complexo e preciso é um hino à arte de fazer grandes vinhos. Pouco mais a dizer.

Joseph Drouhin Beaune Clos des Mouches Blanc 2001
Excepcionalmente muito jovem na cor. Muito fino, apesar do seu perfil gordo e volumoso. Mostra algumas notas de evolução positiva. Estará provavelmente ao seu melhor, mas ainda permanecerá nesta condição por muitos mais anos. Um surpresa de elevado nível.

Jean Noel Gagnard Chassagne-Montrachet 1er Cru Les Caillerets 2003
Evoluiu precocemente, o que tendo em conta a colheita seria de esperar. Ainda bebe-se com prazer, sendo no entanto o vinho menos interessante do jantar. 

Domaine des Comtes Lafon 1er Cru Volnay-Champans 2007
A precisar de tempo. Bem austero, um pouco diferente do que seria de esperar de vinhos desta colheita, que são mais abertos. Mostrou muito pouco, ainda muito fechado. Pareceu-me precisar de tempo.

Domaine des Lambrays Clos de Lambrays Grand Cru 2007
A perfeição num jovem borgonha. Muito perfumado, terrivelmente sedutor. Fino, muito fino, mas sempre com um estilo sumarento, de concentração. Adorei. Que momento fantástico

Domaine de la Romanée-Conti Richebourg Grand Cru  2002
Um colosso de vinho. Muito perfumado, cheio de sugestões de flores e especiarias. Ainda muito primário no aroma.
Muito fino, textura de cetim mas potente, num estilo musculado. Taninos ainda algo presentes. Um infanticídio, mas que me aconchegou o coração. São efectivamente vinhos muito especiais.

Domaine Tollot-Beaut Corton Bressandes Grand Cru 2003
Especialmente depois do anterior vinho, este surgiu algo "fora do baralho". Muito concentrado, muito maduro. A fruta é muito densa, sem ser compotada. Todo ele é redondo, carnudo e opulento. É muito saboroso efectivamente, mas o estilo é pouco transparente e puro.
Terá alguns adeptos, com toda a certeza, mas não é certamente o meu estilo.


Companhia de Vinhos da Madeira Boal 1895
A apoteose para todos os presentes, e um peito inchado para mim. A generosidade de um Vinho da Madeira, que mostra que apesar de tantos anos passados, ainda se ergue com raça e firmeza, que mostra uma complexidade indecifrável. O perfeito resultado da simbiose entre o que a natureza dá e o que o homem constrói.



terça-feira, 10 de abril de 2012

Foi Você que pediu uma experiência inesquecivel?


Como já o afirmei, por diversas vezes, o Vinho, o Mundo do Vinho, tem coisas fabulosas. Tem uma capacidade de desembaraço social enorme. Junta pessoas que se conhecem, que não se conhecem, tudo na mesma mesa e coloca-os a falar, alegremente, como se de velhos amigos se tratassem. Esta capacidade será porventura apenas verificada no desporto e pouco mais. Por vezes, no meu estádio de futebol, do Sporting de Clube de Portugal, dou por mim a conversar animadamente com pessoas que nunca conheci, pessoas com quem nunca me cruzei. Obviamente que esta conversa tanto melhor é, consoante o resultado nos favoreça. Futebol à parte, no vinho, quer ele seja bom, quer seja mau, ou menos bom, dá sempre tema de conversa. Ora, agora imaginem um jantar, onde todos os vinhos têm algo a acrescentar à nossa vida, imaginem um jantar onde passamos por alguns vinhos que muito certamente nunca mais os beberemos. Uma grande honra. Agora, juntemos a isto amigos, bons amigos, que comungam connosco esta paixão, esta "loucura". Que se prostram silenciosos quando chega cada um dos vinhos, que se emocionam, e que sobretudo partilham entre si estes mágicos momentos, aqui e ali bafejados com risos e gargalhadas de lembranças de outros tempos, de outras passagens com outros vinhos e outras epopeias vínicas. Temos a perfeita receita para um jantar inesquecível, e sobretudo uma experiência enriquecedora.

Ora, foi neste fim de semana passado, um pouco maior por sinal, de Páscoa. Que voltei a ter o privilégio de um grande jantar, um enorme jantar onde os vinhos foram o mote, reis e senhores da noite. Uma singela homenagem a todos eles, que cumpriram o propósito da sua criação, dando um enorme prazer a nós meros mortais e sobretudo privilegiados, por termos cruzado caminho com estes.
 

1995 Pol Roger Cuvée Sir Winston Churchill
Brilhante e ainda jovem. Cremoso e fino. Adorei

1952 Lafite Rothschild
Ano mau para bordéus. A lembrar o 56 bebido no ano novo. Bebe-se com prazer, mas é magro e sem grande complexidade. Vale como curiosidade.

1931 Niepoort Porto
Nunca comercializado nem declarado. Novamente às cegas embirrei com a década de 60, engana-me sempre este vinho, de tão jovem que parece.

1979 Pernod-Fourrier Gevrey Chambertin Clos St Jacques
Hoje em dia chama-se Domaine Fourrier, um dos mais procurados na Borgonha. Provavelmente pouca gente deve saber disto e comprei por uma bagatela.
F-A-B-U-L-O-S-O, incrivelmente fino, mas ao mesmo tempo com volume e textura. Verdadeiro na expressão do terroir de Gevrey.

1964 R. López de Heredia Rioja Gran Reserva Viña Tondonia
Vem depois de um vinho memorável e perdeu um pouco isso. Discutiu-se muito as preferências. Eu preferi o anterior. Obviamente que discutir a este nível Muito jovem na cor, fino, mas ao mesmo tempo potente. Estilo velho Rioja em definido. Adorei

1962 Domaine Armand Rousseau Père et Fils Chambertin
Pois, de uma garrafa com nível baixo, saiu um Borgonha de Antologia, com a vida, com a plenitude, que muitos poucos vinhos poderão ter aos 50 anos. Incrivelmente complexo, doce, generoso e por incrível que pareça, uma garrafa muito bem guardada, terá de certeza muitos anos pela frente. Inesquecível

1993 Bonneau du Martray Corton-Charlemagne
Ahh, nada de premox aqui. Excelente, e muito jovem na cor. Muito fino no nariz, viscoso na boca, com volume e largura. "Fantástique"

1997 Bruno Giacosa Barolo
Ficou mesmo nas covas no confronto geral. Aroma inicialmente pouco definido. Deveria ter tido mais tempo. Se fosse bebido sozinho, seria excelente, mas no meio disto tudo....é a vida.

1985 Château Ausone
Outro vinho fantástico. Tão jovem, tão equilibrado. Tem tudo o que um grande vinho deve ter, a fruta, a concentração, a patine, a acidez, os taninos, e em equilíbrio perfeito. Maravilha.

1993 Domaine de la Romanée-Conti Richebourg
Muito jovem ainda. Incrivelmente perfumado, denso e profundo. Um mimo. Um Richebourg cheio de nervo. Ainda com taninos jovens. Precisa de tempo.

1927 JMF Moscatel de Setúbal Superior
Outro vinho de antologia. A complexidade, o vinagrinho, a doçura e depois de isto tudo o equilíbrio. Longo, longo, longo. Que maravilha de vinhos. Grande Moscatel.

2003 Quinta da Pellada
Muito bem e ainda a precisar de garrafa. Nota-se o ano quente, notamos a concentração, mas este vinho está cheio de vida, perfumado e sobretudo cheio de sabor. A Guardar ainda

2004 Quinta do Vale Meão
Uns furitos acima do anterior, mas também ainda muito jovem para ser aberto. Muito fino no nariz, austero na boca. Precisa de tempo, pois tem margem para melhorar e muito. Adorei

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