segunda-feira, 20 de julho de 2009

Carrocel 2007

O que dizer de Álvaro Castro? Na verdade, para nos portugueses, é sobejamente conhecido o seu nome, e o que tem feito pelo relançamento da região do Dão.
O Álvaro Castro é daqueles produtores experimentalistas que não tem qualquer dificuldade em arriscar, em tentar fazer vinhos no limite do desastre. No entanto, é este génio irrequieto, este viver no perigo, que nos tem dado vinhos belíssimos.
Tudo começou em 1989, com a sua primeira colheita do seu Quinta de Saes, que aliás tive a oportunidade de ontem também provar. O vinho mantinha-se vivo, apesar de acusar um pouco os anos que passaram. Apesar desse vinho, que marca o inicio da era Álvaro Castro, no Dão, foi o novíssimo Carrocel 2007, que me fez escrever sobre mais uma colheita deste vinho especial.


Quinta da Pellada Carrocel 2007
Produtor - Álvaro Castro
Região - Dão
Grau - 13% vol
Preço - A partir dos 40€
Esta é uma novidade, que apenas estará no mercado já depois de o verão ter passado por nós, e eventualmente já bem dentro do Natal, ou mesmo no inicio do próximo ano. Feito a partir da Casta Touriga Nacional, este vinho tem uma vinificação muito especial. Passa 2 Invernos a estagiar em barricas, passa de lagar para lagar, sofre transfegas sucessivas de 3 em 3 meses. Realmente algo que apenas o Álvaro Castro podia pensar. Um colosso de confusão.
Sempre que bebi as edições anteriores, quando foram lançadas, fiquei sempre com a sensação de um vinho muito bruto, um diamante por lapidar, no entanto, o Carrocel que bebi ontem era mesmo a antítese dos anteriores.
Mal desencarcerava a rolha, libertava-se a "marca" da Touriga do Álvaro Castro, até aqui o costume. O vinho apresentava um aroma tão afinado, tão preciso. Mantém o mesmo perfil aromático é certo, com toda a exuberância floral, as notas de barrica, o fruto maduro, e algum vegetal, no entanto, tudo estava muito bem delineado, muito bem definido, qual relógio suíço. Uma jóia de aroma.
Na boca a confirmação de um vinho novamente afinado demais para o costume. Os taninos de uma fineza incrível, cheios de sabor, o corpo, aveludado a envolver-nos na profundidade deste, o vinho, encorpado, permitia afirmar que estava "prontinho", mercê de uma afinação, de uma precisão profundamente inesperada, que a boca apresentava. Longo e seco no final, com uma acidez preponderante, transforma, para já, e na minha humilde opinião, o melhor Carrocel que bebi.
Não é um vinho que possa recomendar peremptoriamente, pois o preço assim não permite, no entanto, deixou a aqui a seguinte afirmação que resulta de uma convicção pessoal: Quem tiver a fortuna de ter pela frente este vinho, beberá sem margem para dúvida um dos grandes vinhos que Portugal viu nascer.
Nota 18-18,5

sábado, 18 de julho de 2009

Herdade do Rocim

Trata-se de um dos recentes projectos no Alentejo, em termos de produção de vinhos. A Herdade do Rocim já existia e já tinha vinha há muito tempo, no entanto, foi em 2000 que o grupo movicortes, de Leiria, liderado José Ribeiro Vieira, a adquiriu. Liderando um Grupo sem ligação ao vinho, tive de perceber que José Vieira quis voltar a ter de volta um pouco dos seus tempos de menino, onde acompanhava seus pais nas vindimas da casa, em Cortes (Leiria). Outra razão será a de sua filha, Catarina Vieira, estar intimamente ligada ao vinho pela formação que detém. "Os bons filhos à casa retornam".
A escolha recaiu sobre o baixo Alentejo, mais propriamente na zona da Vidigueira. Partiu-se então para a construção de uma adega moderna, de um complexo enoturistico. Não se pouparam a pormenores de qualidade, mercê de capitais próprios do Grupo Movicortes. Mas não se pense que se criou um projecto megalómano sem alicerces, não, tudo foi pensado, cada passo foi dado sabendo que ia assentar em terra firme. Trabalho árduo, que entretanto começou a dar os seus frutos. Os cerca de 60 hectares de vinha, nem toda a produzir por ser muito nova, são suficientes, para já, ao projecto que abraçaram e que é liderado por Catarina Vieira.
Provei então os vinhos hoje e fiquei muito agradado e num dos casos bastante surpreso. Estão-se a fazer vinhos com muita qualidade na Herdade do Rocim.


Olho de Mocho Reserva branco 2008
Produtor - Herdade do Rocim
Região - Alentejo
Grau - 13% vol
Preço - Apartir dos 9€
Apesar de ser considerado monovarietal de Antão Vaz, este vinho conta com 10% de Arinto, para poder conferir mais acidez ao conjunto. 25% do Antão Vaz fermentou e estagiou, por 6 meses em barricas novas de carvalho francês.
Aroma contido, sem propensão à exuberância. Mais sóbrio, que exuberante, o que não belisca em nada o vinho em si. São aromas de citrinos, de fruto de caroço e de algum vegetal, que se manifestam em primeiro lugar. Passados alguns minutos as marcas do estágio na madeira, com algumas notas fumadas, que conferem brilhantismo ao conjunto. Muito fresco no aroma.
Muito bem na boca, a mostrar-se um vinho de bom porte, glicerinado, untuoso, onde se mostram novamente algumas notas de barrica. Apesar do seu perfil, mostra-se fresco, virtude esta ganha pela excelente acidez que apresenta. O final está muito bem, com excelente persistência a terminar com ligeiro amargor.
Muito bom branco, mais um branco a provar que a colheita de 2008 no Alentejo foi profícua em excelentes brancos. Um vinho muito versátil pelo carácter que apresenta e pela frescura que detém. Uma boa relação da qualidade e preço. Mais um vinho que recomendo e que deverá ser equacionado.
Nota 16,5


Olho de Mocho Reserva 2007
Produtor - Herdade do Rocim
Região - Alentejo
Grau - 14% vol
Preço - Apartir dos 16€
Feito a partir das castas Touriga Nacional, Alicante Bouschet e Syrah, este vinho fermentou e estagiou, por 11 meses, em barricas novas de carvalho francês, e uma pequena quantidade em carvalho americano.
Que agradável surpresa, este vinho. Muito intenso nos aromas , que de inicio oscilam entre notas de violetas, os frutos maduros e os aromas balsâmicos, que de imediato indicam a grande presença da Touriga, que parece comandar nesta fase. O aroma está muito bem desenhado, com o perfil floral, com as notas tostadas muito bem integradas e com algumas notas curiosas de castanhas. e côco Após algum tempo, o Alicante finca o pé, e mostra que também quer protagonismo, também ele quer mostrar as suas notas de exotismo, os aromas de alcaçuz. Belo aroma.
Também muito bem no aroma, mas ainda a precisar de afinação com o tempo em garrafa. Ainda muito marcado pelas notas de barrica. Ainda assim, mostra-se um vinho com corpo e sensação de frescura. Apetece mais um copo. Termina longo e pleno de sabor. Muito bom vinho.
Um vinho que recomendo vivamente. Muito bem feito e na minha opinião ainda por melhorar se mantido por mais uns meses na garrafa.
Nota 17



Rocim 2006
Produtor - Herdade do Rocim
Região - Alentejo
Grau - 14% vol
Preço - Apartir dos 8€
Feito a partir das castas Touriga Nacional, Alicante Bouschet e Syrah. 50% estagiou em barricas de 2º ano de carvalho francês.
Aroma de boa intensidade, parece que neste caso é o Alicante a mostrar-se mais. O aroma esta muito bem, embora a fruta não seja o seu forte principal. Os aromas tostados são evidentes e a fruta pareceu-me esconder-se um pouco. No entanto não deixa de ser um vinho interessante, até pela frescura que aparenta.
Na boca esta melhor, apresenta-se com fruta, com volume médio e com taninos redondos. O final até tem boa persistência e termina com muitos fumados.
Considero, também face ao preço, que se trata de um bom vinho, no entanto alerto que pode não ser ao gosto de todos. Nada como provar para confirmar. Estou curioso com a futura saída do 2007.
Nota 15

Fiquei com a percepção de que se continua a melhorar na Herdade do Rocim. Começam-se a conhecer melhor os solos, as vinhas e as castas, percebe-se melhor o clima, e com o talento na adega, não há porque não melhorar. Continuem......

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Espanha - Dia 4 - Grupo Yllera


Foi a vez de visitar um produtor já com uma estrutura muito maior. Foi na DO Rueda que fomos ao encontro do Grupo Yllera.
Foi uma visita muito interessante, não pela sua grandeza, pela sua estrutura, mas sim, e não é pouco, pela vida que conseguiram dar ao local de visita obrigatória de que dispõem, que são as antigas adegas subterrâneas do século 15. Mas a elas vamos daqui a nada.

Apesar da sua considerável grandeza, a empresa é gerida pela família, que deu o seu nome a este projecto. Já a contar com quase 30 anos de existência, este produtor incide a sua produção em várias DO's como Rueda, Ribera del Duero, Toro, Rioja e ainda os Tierra de Castilla e León.



Começamos por uma breve visita à adega principal, uma vez que dispões de mais duas, e ouvimos um pouco as explicações normais de como funciona a adega e o seu método de trabalho. Até aqui nada de novo, e às vezes fico a pensar que uma adega é uma adega, só muda a dimensão e este ou aquele pormenor, mas ainda assim acabo sempre por ver algo diferente e gosto sempre de as visitar.



Passámos para o enorme parque de barricas, que parecia não acabar. Na maioria dos produtores que visitámos, notei que usam sempre as barricas empilhadas em enormes estruturas. Pouco se vê por cá.




Passámos então para a sala de provas, muito interessante, com a sua invocação de "taberna" à moda espanhola, e com uma pequena garrafeira familiar, logo ao lado. O pormenor mais interessante, além dos vinhos obviamente, foi que a mesma garrafeira servia para manter os presuntos. Muito à Espanhol.....




Hora de ir para o almoço, onde íamos não só provar os vinhos mas também ver a estrutura enoturística, o chamariz se quisermos, que têm à disposição dos seus visitantes.
Entramos e começa uma pequena visita à parte térrea, onde encontramos muitas mais barricas, presumo de algum vinho mais especial, de pouca produção. O que estava em baixo de nós era o tesouro da casa, o ai jesus do director financeiro da empresa, a maior fonte de investimento do grupo.
Por baixo de nós estava um labirinto, isso mesmo, um labirinto de adegas, de corredores que nunca mais acabava e a que os proprietários deram o nome de "El Hilo de Ariadna",.
Os Yllera transformaram, e digo-vos que muito bem, este legado histórico, num pólo de atracção para quem quer visitar estruturas ligadas ao vinho, mas com uma enorme componente histórica e cultural.
Este labirinto, que aliás, cada vez mais vai aumentando a sua extensão, mercê do facto de todos os dias descobrirem mais galerias, nos seus trabalhos, quase diários de perfuração, já conta com 3 km de extensão.
Se já de si o facto de estarmos algumas dezenas debaixo de terra, num labirinto com mais de quinhentos anos, já é de si algo que posso considerar de muito interesse, o produtor ainda teve a fantástica ideia de lhe dar vida, de lhe associar uma história, neste caso da mitologia grega, associando este labirinto ao labirinto mais famoso, o labitinto do Minotauro. Aliás, o próprio nome indica esta ideia, uma vez que "El Hilo de Ariadna", em Português significa o "Fio de Ariadne", é segundo a mitologia Grega, o fio que esta ofereceu a Teseu para que este, depois de matar o Minotauro, pudesse voltar para fora do labirinto.
Toda a estrutura está então ornamentada com alusões à história de Ariadne, de seu pai Rei Minos, de Teseu e do próprio Minotauro.
Obviamente que vimos muito pouco, pois muito existe para ver e penso que nem toda a extensão é visitável. Mas o que deu para ver, foi realmente muito interessante, muito compensador. Estava-se bem ali em baixo. Deixo-vos algumas imagens do local, que são bem mais interessantes que a minha escrita.


O almoço acabou por chegar e decorreu numa das galerias. Ai tivemos oportunidade de conhecer um pouco mais da história da casa e confraternizar com os seus responsáveis. Bela sopa e maravilhosas as "chuletas".

~

Os vinhos, estiveram em bom plano durante o almoço. Começámos com as bolhinhas da casa, um Cantosan, que se mostrou bem fresco, franco e prazenteiro.

Os tintos eram mais interessantes, mesmo os de entrada de gama, os Bracamonte, com maior tiragem, mostravam-se muito bem feitos, cumpridores e saborosos. Nos vinhos com maior estágio, tinham maior complexidade e mostravam algum potencial de guarda.
Não provámos nenhum dos vinhos de topo naquela altura, mas acabei por os provar mais tarde na Vinexpo, e confesso que tive alguma surpresa no que provei. Os vinhos eram mesmo bons. Algo duros e potentes em jovens, mas com enorme potencial de guarda.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Espanha - Dia 4 - Estância Piedra

Logo pela manhã, e ainda pela DO Toro, fomos ao encontro de mais um produtor............


Um "Obelisco" marcava a zona de entrada e desde logo indicava que estávamos prestes a entrar no mundo Estância Piedra.
Este é um produtor recente, pois foi em 1998 que iniciou a sua actividade. Produz vinhos em duas DO, Toro e Rueda, o que aliás parece ser o habitual de muitos produtores nestas paragens. A proximidade assim o permite.
Embora estejamos perante um projecto recente, um projecto que agora dá os primeiros passos, as vinhas, essas já passaram bem para lá da terceira idade, é que este produtor tem vinhas muito velhas, que chegam a passar os 100 anos.





Inicia-se a visita, tudo muito bem cuidado, tudo muito bem arranjado, muita zona verde dentro dos limites da zona operacional, que é composta por um edifício onde fica a adega e outro bem ao estilo moderno, onde fica a zona de provas e a loja de vinhos.




Fomos novamente recebidos com muita simpatia, parece ser panóplia das gentes de Toro, com muita vontade de explicar o que faziam , como fazia e porque faziam. Parámos pelas vinhas, bem cuidadas, quase na sua totalidade Tinta de Toro, o sinónimo da casta Tempranillo, usado por estas bandas.
No lado oposto onde estávamos, talvez a 1 km de distância, estava uma vinha muito velha, com mais de 100 anos, em pé franco. Era o orgulho da casa, era a vinha que chamava a si todas a atenções, todos os carinhos e que servia para fazer o Paredinas, o vinho emblemático do produtor.



Fomos para dentro a adega. A zona das cubas era desde logo a primeira a aparecer. Até aqui nada de novo. Descemos para a sala de barricas, onde curiosamente parece ser onde os produtores espanhóis têm sempre algo de interessante para mostrar. Neste produtor, junto à barricas, estava patente uma exposição de quadros com um tema relacionado com a mitologia grega, a Ilíada, de Homero.



Passámos então à parte final, que seria uma prova de vinhos. Provámos um Verdelho, de Rueda, um Rosé, um Tinto, e ainda acabamos por provar, o tal paredinas, o vinho top, do produtor.
Gostei dos vinhos deste produtor. Muito equilibrados, muito bem feitos. O Verdelho, o Piedra Verdejo 2008, tinha um perfil de frescura encantadora, com um nariz exuberante qb, sem massacrar demasiado.
O Rosé, bem seco, mostrava equilibrio e com todo um perfil silvestre, mostrava que era pa ser tido em conta.
O Paredinas, da colheita de 2001, era realmente um vinho superior, que estava a envelhecer lindamente. Mantinha-se cheio de fruta, mas já com notas terciárias. Encorpado e com equibrio notável Belo vinho.

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